Em sua fase provisória, o acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul entra em vigor em 1º de maio, segundo comunicado da Comissão Europeia. Esse desenvolvimento abre novas perspectivas para o mercado brasileiro, com potencial para fortalecer os fluxos comerciais entre os dois blocos e apoiar a demanda por algodão.
O acordo prevê a redução gradual ou eliminação de tarifas de importação e exportação sobre mais de 90% dos bens comercializados, tornando-se um dos maiores acordos de livre comércio do mundo. De acordo com dados da Comissão Europeia, o Brasil responde por quase 80% das exportações do Mercosul para a Europa. No entanto, o algodão brasileiro ainda tem participação limitada nesse fluxo comercial — cenário que pode mudar com a implementação do acordo.
Segundo Marcelo Duarte, diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), o Brasil tem muito a ganhar com o acordo entre União Europeia e Mercosul, especialmente no setor têxtil. “Hoje, uma das principais barreiras que enfrentamos é a falta de acordos de livre comércio com grandes mercados, o que faz com que nossa indústria ainda seja fortemente voltada ao mercado interno. Esse acordo proporcionará ao setor industrial brasileiro uma oportunidade de mercado talvez nunca vista antes”, destaca.
“Já estamos trabalhando, em conjunto com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), no desenho de um plano estratégico para garantir que a indústria nacional se beneficie, permitindo exportar para a Europa peças produzidas com algodão brasileiro — e fabricadas no Brasil, em vez de peças feitas com algodão brasileiro em outros países. A ideia é fortalecer a indústria doméstica, ampliando ainda mais o papel do algodão não apenas como matéria-prima, mas também como motor do desenvolvimento industrial do país”, acrescenta.
Onde o algodão brasileiro se encaixa
George Candon, CEO da My Friday Consultoria Estratégica, explica que o acordo UE-Mercosul é um tratado abrangente, negociado ao longo de mais de duas décadas, que eliminará uma ampla gama de barreiras tarifárias e não tarifárias ao comércio entre os dois blocos. Ele criará uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com uma população combinada de mais de 700 milhões de pessoas e um PIB conjunto de cerca de €20 trilhões — aproximadamente um quinto do PIB global.
A eliminação das altas tarifas (de até 35%) sobre produtos agrícolas e outros bens aumentará significativamente o acesso dos produtores rurais do Mercosul e do Brasil ao mercado europeu. Estimativas sobre os benefícios econômicos cumulativos variam, mas algumas indicam que o valor adicional das exportações do Mercosul para a UE — em grande parte concentrado no Brasil — pode ultrapassar €8,5 bilhões.
“Para o setor de algodão brasileiro, o acordo dificilmente terá um impacto direto, ou pelo menos não será imediato. O Brasil não exporta pluma de algodão para a Europa, mas principalmente para mercados asiáticos, onde ela é transformada em fios, têxteis e produtos manufaturados”, afirma.
“A Europa é um importante importador indireto de algodão brasileiro por meio de têxteis e vestuário que grandes marcas e varejistas europeus e internacionais produzem e/ou adquirem da Ásia. No entanto, é extremamente difícil quantificar quanto algodão brasileiro é efetivamente utilizado pelos consumidores europeus, dada a complexidade da cadeia de valor, que envolve significativa mistura de origens, fibras e tecidos durante os processos de fiação, tecelagem e fabricação”, acrescenta.
Um impulso estratégico para o comércio têxtil
Para George Candon, o acordo Mercosul-UE oferece à indústria têxtil e de vestuário oportunidades em termos de acesso a mercados, cooperação tecnológica, investimentos e fortalecimento de padrões ambientais nos países de ambos os blocos. Os países do Mercosul também possuem uma indústria têxtil significativa: somente no Brasil, são mais de 25 mil empresas, cerca de 1,3 milhão de empregados e um valor aproximado de US$ 41 bilhões.
“Além de reduzir barreiras comerciais, o acordo também pretende promover a integração das cadeias de valor entre Mercosul e UE, e apoiar o Mercosul na transição gradual para uma produção de maior valor agregado voltada à exportação. As associações do setor têxtil da Argentina, Brasil, Paraguai e Europa (FITA, ABIT, AICP e Euratex) afirmaram publicamente seu compromisso de contribuir ativamente para a implementação do acordo, bem como de adotar ações que consolidem o setor em ambos os blocos como atores relevantes na economia global.”
Brasil pode ampliar presença na Europa
Outro aspecto fundamental é o alinhamento com exigências europeias cada vez mais rigorosas em sustentabilidade e rastreabilidade. Os produtores brasileiros de algodão desenvolveram um sistema de rastreabilidade que captura dados desde as primeiras etapas da produção. Isso permite que marcas e consumidores entendam não apenas onde o algodão foi processado, mas também como foi cultivado.
Silmara Ferraresi, diretora de Relações Institucionais da Abrapa, destaca iniciativas como o programa SouABR, pioneiro na rastreabilidade em larga escala na indústria têxtil brasileira baseada em tecnologia blockchain. O programa permite que consumidores acompanhem toda a jornada de um produto por meio de um QR code disponível nas etiquetas de itens feitos com algodão brasileiro responsável. “O SouABR dá transparência à produção do algodão brasileiro e permite o acompanhamento total da cadeia de custódia da fibra, que pode ser vista da semente ao guarda-roupa. Essa é uma forma de agregar valor ao nosso produto diante do mercado europeu, um dos mais exigentes do planeta”, avalia.
O Sistema de Identificação da Abrapa (SAI) é uma das poucas plataformas no mundo a oferecer rastreabilidade fardo a fardo, fornecendo dados detalhados e confiáveis para a cadeia de valor. Isso significa que a rastreabilidade está disponível no nível do fardo, do campo ao fiador, oferecendo profundidade única de informações sobre origem, práticas agrícolas e indicadores de sustentabilidade.
Próximos passos do acordo
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou, nesta terça-feira (28), o decreto de promulgação do acordo Mercosul-União Europeia, em evento no Palácio do Planalto. No entanto, o texto ainda enfrenta etapas institucionais na Europa. O Parlamento Europeu decidiu encaminhar o acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia, o que pode atrasar sua implementação completa.
Caso o Tribunal valide os termos do acordo, o texto seguirá para votação final no Parlamento Europeu. Enquanto isso, a aplicação provisória pode ocorrer entre países que já concluíram seus procedimentos internos, como o Brasil.
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Fonte: Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa)




